HORA DO SILÊNCIO NA REPÚBLICA DOS TWITTERS

Os falastrões que dedilham intrigas estão pondo em risco a estabilidade do governo Bolsonaro…

 

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Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro*

O que parecia impensável, aconteceu. Passaram-se oito semanas da posse… e já estamos assistindo a um festival de intrigas palacianas, dignas das côrtes Romana e Vaticana no período dos Bórgia. A diferença é que o veneno quinhentista não era destilado pelo twitter.

Uns demonstram revolta com outros que mentem. Há quem produza pós-verdades e outros que divaguem sobre fake news… vaidades cendem o fogo que “frita” ministros e incinera dissidentes. Enquanto o embate dos áulicos processa-se pelo twitter, o país vibra com a transferência de presos perigosos da bandidagem comum e não compreende porque não se prendeu até agora os dirigentes que produziram tragédias, encastelados no vértice da pirâmide da arrogância da Vale ou do Flamengo.

Estamos lendo a república pelo twitter, atolados na mesma lama de Brumadinho, que faz o governo escorregar e por-se de joelhos ante o poder econômico impune.

Voltando às pequenas intrigas, o atrito da vez agora parte do pugilato digital entre Carlos Bolsonaro e Gustavo Bebiano.

O motivo do Vereador Carlos Bolsonaro, o filho mais próximo do Presidente convalescente, parece a priori justo.

Zeloso com a imagem do pai, Carlos revoltou-se ao perceber que o Ministro Gustavo Bebiano – da Secretaria Geral da Presidência, buscava demonstrar na imprensa que tinha o aval de Jair Bolsonaro para por panos quentes no escândalo das candidaturas femininas “laranjas”, promovidas em Pernambuco pelo PSL – o partido do governo, o qual presidira nas últimas eleições. Em verdade, Bebiano estaria no centro de um bolsão de instabilidade no governo, coisa que negara afirmando manter contato com o Presidente.

O problema havia sido exposto pelo Blog “O Antagonista”, e respondido por Bebiano, que informara não ocorrer instabilidade alguma em função dos escândalos, tanto que já havia falado com o Presidente várias vezes sem qualquer problema.

“Ontem estive 24h do dia ao lado do meu pai e afirmo: É uma mentira absoluta de Gustavo Bebiano que ontem teria falado 3 vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado pelo Globo e retransmitido pelo Antagonista”, escreveu Carlos Bolsonaro no seu twitter, abrindo uma crise palaciana de alto risco político.

Carlos foi além. Avançou no celular do pai presidente e, de lá, retransmitiu pelo twitter a troca de mensagens do dirigente máximo do país com seu ministro.

Parafraseando Fernando Pessoa, amor demais, também sufoca. E é esse exagero de amor filial que agora pode sufocar o governo Bolsonaro em um conflito mais complexo que a rusga com Bebiano.

A intempestividade filial não é novidade. O atrito de agora é um de vários outros já protagonizados pelos protetores do Presidente – filhos, gurus e seguidores próximos, instalados no palácio ou mesmo distantes – porém digitalmente conectados.

Após escorcharem o Vice-Presidente da República, um grande e respeitado General, os áulicos intriguentos palacianos dirigem suas baterias contra os dirigentes do partido que confere sustentabilidade ao governo: o PSL.

Há duas correntes dentre os que disparam o fogo amigo: os que querem simplesmente proteger Jair Bolsonaro do que entendem ser os “aproveitadores” postados no entorno – onde se enquadra o filho Carlos – que age publicamente; e os que querem retirar poder do PSL e seus dirigentes, promovendo uma espécie de substituição paulatina de interlocução no parlamento, formando novo partido ou alterando a hegemonia no bloco de apoio no legislativo – onde se insere o Ministro- Chefe da Casa Civil, Ônix Lorenzoni, que assim parece agir nos bastidores.

No momento em que se está desembarcando em praias inimigas, ainda tomadas por hostes dos governos anteriores, rachar a cúpula do comando do governo e desfazer da base de apoio parlamentar, não parece boa estratégia, ainda que recobertas as ações das melhores intenções.

Nem Adolf Hitler – que mantinha seu magnético poder às custas da divisão e intrigas entre seus seguidores próximos, admitiria um tamanho nível de exposição das entranhas palacianas, como de fato está a ocorrer nesse festival de dissenções internas que em nada favorecem a República.

Nosso regime é democrático, antipopulista, empenhado em DESFAZER o malfeito que se abateu por duas décadas sobre o solo brasileiro. Não pode, agora, em pouco mais que oito semanas, sofrer com dissenções internas, que, no entanto, parecem ocorrer por conta da hesitação de Bolsonaro em seguir o que SENTE, e racionalizar o comportamento conforme dita a realpolitik – intrínseca ao exercício do Poder.

De uma forma ou outra, filhos e aliados não podem fazer uso da intimidade que gozam junto Presidente para desfazer de aliados no exercício do Poder Público. Muito menos poderiam expor a fragilidade desse relacionamento familiar e pessoal – deixando à vista de todos que filhos têm acesso à comunicação pessoal do pai – chefe do Poder Executivo brasileiro. Isso fere até mesmo a Segurança Nacional.

Vale aqui o uso da filosofia militar: ou o presidente põe um fim nisso e assume o comando, ou o seu plano de desfazer de uma vez o malfeito tucano-lulo-petista, pode ir por água abaixo, a partir de intrigas que desagregam o próprio quartel general em que está sediado.

O bate-boca pelo twitter protagonizado pelo filho do presidente e seus acólitos, contra o que imaginam ser “Cardeais Richelieu” postados no Palácio, recomenda, de quem tem o mínimo de inteligência, adotar o SILÊNCIO.

Como na música Enjoy the Silence, cabe recomendar a Carlos Bolsonaro os versos de Depeche Mode:

“Aprecie o Silêncio
Palavras, como violência
Rompem o silêncio
Chegam destruindo
Para dentro de meu pequeno mundo
Dolorosas para mim
Passam através de mim
Você não consegue entender?
Oh, meu pequeno garoto (*)

Tudo o que eu sempre quis
Tudo o que eu sempre precisei
Está aqui nos meus braços
Palavras são muito
Desnecessárias
Elas só podem machucar” ¹

(* modificado pelo autor do artigo)

Necessário impor um silêncio republicano. Mas, como estamos em um regime seguro pelo fio de esperança no glorioso estamento militar, remeto meus pacientes leitores á advertência atribuída ao grande General Paraquedista Polonês, Sosobowski, ao saber do plano de invasão da Alemanha, a partir da Holanda, planejado por Montgomery na Segunda Grande Guerra.

Sosobowski foi protagonizado por Gene Hackman, no histórico filme “Uma Ponte Longe Demais” – sobre a Operação Market Garden, cujo desastre militar integra o rol das pirâmides de arrogância que matam.

Ao percebeer que o plano (tal qual parece ser a estratégia palaciana boslsonarista), foi traçado sem observar a inteligência do inimigo, o General Sosobowski calou-se, provocando a curiosidade dos interlocutores. Instado a se manifestar ante o seu ostensivo silêncio, declarou que “seres inteligentes formam uma minoria, que se sente mais confortável no silêncio”…²

Precisa dizer mais?

Notas:

1- Enjoy The Silence é uma música do grupo Depeche Mode:

 

2- A fala atribuída ao General Sosobowski se dá no contexto da apresentação do Plano de Montgomery – retratado no filme “Uma Ponte Longe Demais” – The Bridge Too Far: in

 

 

 

afpp-55 (3) - Copia*Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista e consultor ambiental. Sócio diretor do escritório Pinheiro Pedro Advogados. Integrante do Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, membro do Instituto dos Advogados Brasileiros – IAB. É Editor- Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.

 

 

 Fonte: The Eagle View

 

 

 

 


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